O mistério Satoshi Nakamoto

O comportamento recente do preço do Bitcoin, devido aos acontecimentos na China, levantou a duvida se a moeda digital pode sobreviver sem o apoio do país,

Publicado em 18 de junho de 2018 por

Através da lei da Liberdade de Informação americana, entusiastas tentam tirar das agências de segurança informações sobre Satoshi Nakamoto. Confira essa e anteriores tentativas de desmascarar a misteriosa figura por trás do Bitcoin.

Até a invenção da Blockchain, a existência de uma moeda digital que não dependesse de um servidor central nunca foi possível devido ao famoso problema do Gasto Duplo. Desde os anos 90, diversas tentativas de resolver esse problema foram testadas e compartilhadas em fóruns de criptografia, especialmente ligados ao cypherpunk (comunidade de pessoas que almejavam retirar do Estado o monopólio sobre o dinheiro válido), mas nenhuma delas conseguiu, de fato, realizar esse feito. Em 2008, no entanto, tudo mudou, quando uma dessas pessoas, denominada Satoshi Nakamoto, finalmente publicou um documento descrevendo sua criação: uma moeda decentralizada com uma tecnologia que superava o problema do gasto duplo, chamada Bitcoin, finalmente tornando possível o ideal cypherpunk. O Bitcoin funcionava através da Blockchain, um registro público de todas transações já feitas com a moeda que estava hospedado não em apenas um servidor central, mas distribuído em diversos nós – computadores de usuários que tivessem o software por ele desenvolvido instalado em suas máquinas. Nakamoto continuou trabalhando no Bitcoin e mantendo sua governança, com ajuda de outros usuários da comunidade até 2010, quando deixou o projeto e entregou tudo relacionado a ele a alguns notórios colabores.

Sobre a identidade desta pessoa, se sabe muito pouco: no perfil dele em um site de uma fundação para colaboração de desenvolvimento de softwares decentralizados, se denominava um homem de 37 anos com residência no Japão. Satoshi participava de fóruns ligados ao cypherpunk e, posteriormente, apenas de seu próprio forum, o bitcointalk. Após algum tempo, os usuários deste último notaram que, apesar de denominar-se japonês, Nakamoto tinha o inglês perfeito e escrevia com “sotaque” britânico, além de postar em horários incompatíveis com o horário comercial comum da Ásia.  

A escrita do Whitepaper de Nakamoto e o desenvolvimento da Blockchain é, indubitavelmente, um dos fenômenos mais importantes na história da computação. Seu criador, apesar de ter um nome prestigiado e reconhecido como um dos cientistas mais notáveis da computação, devido ao impacto de sua criação, nunca mediu esforços para deixar passar o mínimo de detalhes possíveis sobre sua identidade, permanecendo, até o momento, o maior mistério do universo das criptomoedas.

Ao longo do tempo, múltplas pessoas foram “acusadas” de ser Satoshi Nakamoto. É o caso do americano Nick Szabo, um conhecido entusiasta das moedas digitais decentralizadas desde os anos 90, que já havia publicado o paper de um projeto chamado “bit gold”, muito parecido com o Bitcoin, e que é considerado um precursor desse. Até mesmo análises de estilo confirmavam que a “forma como ele escrevia” era condizente com a de Nakamoto. Szabo já havia dito que era um admirador da ideia de Nakamoto, mas sempre negou ser ele o criador da Primeira Moeda.

Um dos casos mais bizarros é o de Satoshi Nakamoto. Sim, um homônimo de Satoshi que vivia nos Estados Unidos, cujo nome americano era Dorian Prentice Satoshi Nakamoto. Além do nome idêntico, esse Nakamoto também trabalhava com segurança de tecnologia e se denominava libertário, de acordo com sua filha. E não para por aí: ao ser primeiramente perguntado sobre sua relação com o Bitcoin, Nakamoto respondeu que “não estava mais envolvido com isso e que entregou o projeto para outras pessoas, e que não queria mais discutir sobre ele”. No entanto, em entrevistas seguintes, ele afirmou que nunca tinha ouvido falar sobre o Bitcoin antes e que apenas confundiu a pergunta com um projeto anterior que tinha feito para o exército. Posteriormente, em um post no Reddit, ele disse que, na verdade, confundiu o projeto com um que tinha feito para o Citibank. Apesar de todas as coincidências, a possibilidade de Satoshi Nakamoto ser ele mesmo seria, no mínimo, improvável.

A história não para por aí: um dos vizinhos de Doriam Satoshi Nakamoto era Hal Finney, um grande nome da criptografia e uma das primeiras pessoas a testar o software e enviar informações sobre bugs e contribuições pra ele. A partir daí, criou-se a teoria que Finney pegou o nome do vizinho “emprestado” para fazer as primeiras publicações. Finney negou as acusações dos jornalistas e mostrou os e-mails trocados entre ele e Nakamoto, datados da época pré-Bitcoin, que provam que não era ele.

Finalmente, a teoria mais complexa de todas é a do pesquisador australiano Craig Steven Wright: após diversos rumores de e-mails hackeados de sua conta, diversos portais midiáticos começaram a publicar mais e mais evidências ligando Wright a Nakamoto. Vários outros e-mails pessoais de Wright foram divulgados, alguns que até mesmo o associavam a crimes de esquemas relacionados a sonegação de impostos e lavagem de dinheiro. Como resultado disso, o pesquisador teve sua casa aberta e revistada por diversos policiais em busca de evidências. Diferente dos outros suspeitos, Wright não negou ser o criador do Bitcoin – pelo contrário, postou em seu blog que era ele e que, finalmente, havia sido descoberto. Wright conseguiu convencer algumas pessoas importantes da mídia e ligadas ao Bitcoin sobre sua identidade ao assinar transações com a carteira de Nakamoto, ou seja, a mesma chave privada associada à primeira transação da Blockchain. Pessoas importantes e pioneiras da Fundação Bitcoin confirmaram o fato. Wright nunca conseguiu demonstrar isso publicamente, no entanto, levantando suspeitas de que tudo isso era uma falcatrua muito bem organizada e planejada. Wright disse que desistiu disso depois de perceber a exposição que sua família receberia, e desde então, nunca divulgou uma prova pública de que era mesmo Satoshi. O caso continua controverso, rendendo diversas brigas na justiça e até documentários no Netflix.

O russo Vitalik Buterin (ou algum usuário com o nome exatamente igual ao dele), controverso criador do Ethereum, segunda criptomoeda mais valiosa, também acusou Satoshi Nakamoto de estar ligado à Agência Nacional de Segurança Americana, em um post no fórum bitcointalk, quando o projeto ainda estava em sua infãncia.

Em 2017, em uma publicação no Medium, o jornalista Alexander Muse afirmou que utilizou a lei da liberdade de informação (Freedom of Information Action – FOIA) para perguntar a DHS (United States Department of Homeland Security) sobre a identidade de Nakamoto, e que recebeu respostas positivas de que eles já o haviam identificado, e que, na verdade, o pseudônimo era composto por um grupo de quatro pessoas diferentes. Nessa semana, um jornalista da Motherboard resolveu fazer o mesmo com a CIA e o FBI. Da CIA, obteu a resposta de que eles não podem “afirmar nem negar que possuem documentos sobre Satoshi Nakamoto”. Essa resposta acendeu a curiosidade de muitos. Será que estamos pertos de descobrir a identidade do bilhonário mais misterioso do mundo?

Independente de quem seja Satoshi Nakamoto, se ele é realmente uma das dezenas de pessoas acusadas ou até mesmo que afirmaram o ser, se ele é o japonês de 37 anos que descrevia em seu perfil, se é uma mulher ou se é mais de uma pessoa, a importância desta entidade, que provavelmente, ao criar a tecnologia da Blockchain para servir de apoio para a primeira moeda digital decentralizada totalmente funcional e segura, abriu as portas para todas as outras funcionalidades além de transações entre criptomoedas, é imensa e deve ser reconhecida. Obviamente, Satoshi Nakamoto não é nenhum amador em criptografia avançada e não quer ser descoberto. Quem quiser tentar fazer isso, certamente terá que superar uma das mentes mais brilhantes do nosso século.

Chrys
Chrys é fundadora e escritora ativa do BTCSoul. Desde que ouviu falar sobre Bitcoin e criptomoedas ela não parou mais de descobrir novidades. Atualmente ela se dedica para trazer o melhor conteúdo sobre as tecnologias disruptivas para o website.

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