A história da Silk Road: como o Bitcoin levou a economia da darknet a outro nível

“Alguém aqui já esteve na Silk Road? Ela é algo como um amazon.com anônimo. Não acho que eles tenham heroína, mas estão vendendo outras coisas lá. Eles usam Bitcoin e Tor para transações anônimas. Me diga o que você pensa sobre isso”.

Publicado em 16 de outubro de 2018 por

“Alguém aqui já esteve na Silk Road? Ela é algo como um amazon.com anônimo. Não acho que eles tenham heroína, mas estão vendendo outras coisas lá. Eles usam Bitcoin e Tor para transações anônimas. Me diga o que você pensa sobre isso”.

O post de 2011 no Bitcointalk foi publicado pelo usuário sob o apelido de altoid. Como posteriormente descoberto, ele foi o primeiro empregado de marketing de Ross Ulbricht, criador da Silk Road, lendário site da darknet, preso em outubro de 2013 pelo FBI e subsequentemente sentenciado à prisão perpétua.

Cinco anos após a exposição de Ulbricht, propomos relembrar como o projeto de Ulbricht ajudou traficantes a se esconderem dos holofotes e qual foi o papel desempenhado por ele no ciclo de vida do Bitcoin.

A história da Silk Road: como o Bitcoin levou a economia da darknet a outro nível. BTCSoul.com

O sonho de criptopunks e anarquistas

Todos possuem o direito de viver de acordo com seu coração, se suas ações não ferirem a terceiros. Ao criar a Silk Road, o físico Ross Ulbricht, de 26 anos, era guiado por este mesmo princípio. Ele intencionava libertar as pessoas das proibições e do controle do Estado.

Desconsiderando as especificidades dos produtos vendidos no site, a Silk Road seria um exemplo de harmoniosas interações entre o livre mercado e pagamentos descentralizados.

O começo da Silk Road

Inicialmente, Ross Ulbricht denominou seu projeto “Underground Brokers”, posteriormente mudando para Silk Road. De janeiro de 2011 a outubro de 2013. A Silk Road permitiu que várias pessoas comprassem drogas online sem contatar traficantes de rua. O Bitcoin se tornou a moeda de troca do site.

O primeiro produto comercializado na plataforma foi o chamado Cogumelo Psilocybin, cultivado pelo próprio Ulbricht. Quatro meses após o lançamento, a Silk Road já oferecia 300 diferentes produtos. Um ano depois, 350 comerciantes distintos ofereciam seus produtos no site.

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No estágio inicial da Silk Road, Ulbricht processava todas as transações em Bitcoin manualmente. De cada compra feita, ele levava uma comissão de 2 a 10% do valor dependendo do tamanho do pedido. Em agosto de 2011, ele recebia cerca de US$30 mil em comissões.

Para que os comerciantes tratassem as transições de forma responsável e não vendessem produtos de baixa qualidade, um mecanismo de feedbacks era operado no website – o comprador poderia classificar o pacote numa escala de 1 a 5. As avaliações possibilitavam a exclusão de negociantes inescrupulosos.

O papel da Silk Road no Bitcoin

No início de 2012, a Silk Road era o único lugar onde pagamentos em Bitcoin eram feitos regularmente. Para combater a volatilidade da criptomoeda, Ross introduziu um mecanismo de hedging, que permitia que usuários e compradores fixassem o preço de uma futura transação e não se preocupassem com os “pulos” no preço do BTC.

Neste ponto, quando o site ficava indisponível, o curso do Bitcoin começava a cair. Após uma postagem do portal Gawker em 1 de junho de 2011, mil novos usuários se juntaram à plataforma, enquanto que o preço do Bitcoin na corretora MtGox ultrapassou a marca de US$10.

O despertar das agências de inteligência

A Silk Road não duraria para sempre: em 5 de junho de 2011, Charles Schumer, senador do estado de Nova York, chamou reforços para fechar a Silk Road. Ele então descreveu o Bitcoin como um dos métodos de lavagem de dinheiro e o chamou de “ferramenta para criminosos”.

Nesse contexto, o barulho feito pelo senador fez apenas beneficiar a plataforma da darknet: após essa “publicidade”, mais 10 mil usuários se registraram. Ao meio de 2013, esse número já chegava a um milhão.

No final de 2011, agentes do Departamento de Segurança Interna, em Maryland, lançaram uma investigação do caso da Silk Road, era o início da operação chamada “Marco Polo” – o nome foi dado em homenagem do viajante que seguiu a Rota da Seda até a China.

O primeiro avanço no caso foi a prisão do usuário digitalink (Jacob George) em janeiro de 2012, que vendia heroína e ecstasy e, por isso, foi sentenciado a seis anos de prisão.

Agentes dos serviços especiais criaram uma conta na Silk Road para então chegar ao principal administrador da plataforma – que à época, se chamava Horrible Pirate Roberts. Ross Ulbricht salientou que não apenas ele escrevia coisas através da conta.

Em entrevista com o jornalista Andy Greenberg, Horrible Pirate Roberts admitiu que não era o fundador da Silk Road. De acordo com ele, ele descobriu e consertou um bug no sistema de segurança, sendo que após isso, comprou o site.

O fim do império de drogas na darknet

Ao fim de 2012, agentes infiltrados colocaram 1 kg de cocaína à venda no site. O pacote com produtos para envio foi entregado ao administrador sênior da plataforma (chronicpain). Foi assim que os agentes chegaram a uma significativa figura na Silk Road: Curtis Green, de 47 anos. Ele tinha acesso a mensagens e transações financeiras de usuários da plataforma. Neste ponto, agentes do FBI de Nova York se juntaram à busca por Terrible Pirate Roberts.

Em 2013, na fronteira canadense, um patrulheiro americano interceptou identidades falsas com fotos de Ulbricht. Em seguida, oficiais da lei ficaram cara a cara com o criador da Silk Road, mas isso não resultou em sua detenção. Ulbricht alegou que não sabia da origem dos documentos. Agentes continuaram a coletar evidências.

Quase simultaneamente, agentes do FBI descobriram a localização dos servidores da Silk Road, sendo que, no entanto, os meios utilizados para “decifrar” o Tor permanece um mistério. Advogados de Ulbricht acusaram o FBI de usar ferramentas ilegais durante a investigação.

“Existem muitas teorias sobre isso. Alguns sugerem que o FBI utilizou um programa da Agência Nacional de Segurança para quebrar a Silk Road”, afirmou Runa Sandvik, especialista em segurança informática.

Durante uma operação especial, o FBI deteve Ulbricht na Biblioteca de São Francisco. Investigadores então descobriram, no laptop de Ross, evidências que comprovaram seu envolvimento na Silk Road. Isso marcou o fim do império de drogas na darknet.

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Como afirmaram agentes da inteligência, a prisão de Ulbricht foi possível por conta de erros dele mesmo: foi descoberto um post no Bitcointalk – que Ross publicou sob o nick altoid – que continha o nome verdadeiro do fundador da Silk Road.

Após a detenção de Ulbricht, se iniciou a caça a outros administradores e negociadores na Silk Road, em particular do irlandês Gary Davis e do canadense Thomas Clark, conhecidos pelo pseudônimo de Variety Jones.

Sentença. Disputa. Prisão.

Em maio de 2015, a juíza Katherine Forest sentenciou Ulbricht a duas prisões perpétuas – ele foi considerado culpado de tráfico de drogas através da Silk Road, de conspiração para transportar drogas, de hackear redes de computadores e de lavagem de dinheiro, bem como de liderar uma organização criminosa. Forest afirmou que Ulbricht se julgava superior à lei quando criou o mercado de tráfico de drogas.

Em dezembro de 2017, Ross Ulbricht alegou que pretendia desafiar a sentença dada a ele pela Suprema Corte dos EUA, afirmando que seus direitos foram violados durante a investigação e o processo legal. Em junho de 2018, a Suprema Corte rejeitou a petição.

A luta de Ulbricht ainda não terminou. Em julho, o promotor Robert Gur, de Maryland, arquivou uma petição para remoção das queixas referentes à contratação de assassinos por Ross Ulbricht, então fundador da Silk Road.

Ross anteriormente havia sido acusado de contratar os usuários redandwhite e nob para matar Curtis Green e vários outros blackmailers que ameaçaram interromper o site e divulgar informações sobre os usuários. Contudo, em ambos os casos, a acusação não apresentou evidências de que uma das “vítimas” foi, de fato, assassinada. Ulbricht acredita que foram essas acusações que fizeram com que sua sentença fosse tão rígida.

Adicionalmente, organizadores do movimento Free Ross Ulbricht postaram uma petição no portal Change.org pedindo a Donald Trump, presidente dos EUA, que perdoe o fundador da Silk Road. No momento da redação deste artigo, mais de 92 mil pessoas já haviam assinado o documento.

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Bitcoins da Silk Road

Mais de 144 mil BTC (cerca de US$122 milhões na época) foram apreendidos de Ulbricht. O USMS confiscou também 29 mil BTC de várias carteiras relacionadas à Silk Road.

Ross Ulbricht abandonou completamente os direitos sobre os milhões de dólares em Bitcoin confiscados pelas autoridades americanas.

Vale notar que alguns oficiais da inteligência se apropriaram ilegalmente das criptomoedas confiscadas. A história mais notória foi a de Sean Bridges, Agente do Serviço Secreto dos Estados Unidos que roubou 20 mil BTC. Em setembro, a comunidade criptográfica discutiu ativamente notícias que informavam que milhares de Bitcoins relacionados à Silk Road estavam sendo movidos.

Então… o que vem pela frente?

Mesmo após fechamento da Silk Road original, a negociação online de drogas nunca parou, o que, contudo, era previsível. Houveram cópias do site: Silk Road 2.0, Silk Road 3.0. No entanto, elas não duraram. Até o momento, é possível localizar apenas o site Silk Road 3.1 na darknet.

Um relatório do Serviço de Polícia da União Europeia alegou que pelo menos 9 grandes plataformas de venda de produtos ilegais – incluindo AlphaBay e Hansa – foram fechadas. Isso, no entanto, levou à expansão de sites menores. O tráfego no portal Dream Market, por exemplo, aumentou em 20%. Em siter maiores como Wall Street, TradeRoute e T-Chka/ P-int, a procura por esses produtos aumentou em 290%, 475% e 840% respectivamente.

“As forças policiais são apenas uma pequena parte do risco para as pessoas que vendem drogas. Um risco ainda maior nesse ambiente são outros criminosos. Ao vender de “mão em mão” há sempre um amador para assustar, ou mesmo matar, para pegar o dinheiro e recuperar substâncias”, afirmou o Professor James Martin, da Macquarie University, adicionando que a negociação online de produtos ilegais é mais segura.

Ross Ulbricht pagou por sua tentativa de criar um marketplace livre e sem fronteiras. Na prisão, ele recebeu uma posição como supervisor da biblioteca, ensinando prisioneiros, meditando e esperando por um futuro melhor.

Recentemente, no Twitter, Ross agradeceu ao presidente Donal Trump por perdoar Alice Marie Johnson, condenada em 1996 a prisão perpétua por organizar vendas de cocaína. Se Ross Ulbricht pode esperar por um perdão, ainda é um mistério. Porém temos que ter esperanças.

Chrys
Chrys é fundadora e escritora ativa do BTCSoul. Desde que ouviu falar sobre Bitcoin e criptomoedas ela não parou mais de descobrir novidades. Atualmente ela se dedica para trazer o melhor conteúdo sobre as tecnologias disruptivas para o website.

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