O curioso mundo das criptomoedas que cresceram durante a recessão

Na semana passada, houveram significativos eventos para o líder do mercado de criptomoedas, o Bitcoin, o que afetou positivamente toda a indústria.

Publicado em 29 de outubro de 2018 por

O primeiro semestre de 2018 foi nebuloso para o mercado das criptomoedas. Todo mundo sabe da história: apenas em fevereiro, o Bitcoin perdeu 50% do seu valor de mercado. Outras criptomoedas, como Ripple e Ethereum, também perderam mais da metade do seu valor nesse período. Grandes altcoins simplesmente perderam todo ou quase todo o seu valor – até desaparecerem ou se tornarem irrelevantes.

Enquanto isso, algumas criptomoedas floresceram como nunca. Algumas, antes minúsculas, hoje figuram no bastião do top 50 das mais valiosas. Outras simplesmente tiveram um boom nesse período e, depois, estagnaram ou fracassaram.

Portanto, analisar a progressão dessas moedas também passa pela análise do período. Não há debate de que o mercado das criptomoedas, nesse período, enfrentava uma crise. Mas vamos tomar algumas coisas em consideração:

  1. O Bitcoin já passou por crises piores. O famigerado caso do hack na exchange Mt. Gox, por exemplo, em 2011, fez com que o valor da moeda caísse de US$17 para US$0.01. Em 2013, o valor do BTC, que estava em US$263, caiu para US$126 em 6 horas (uma das explicações para essa queda, em específico, foi uma crise no Cyprus).
  2. No mesmo período, algumas moedas “de verdade” foram mais desvalorizadas que o Bitcoin. A Lira turca é um exemplo de uma moeda que caiu mais “z points” na Bloomberg que o BTC. Existem casos ainda mais aberrantes, como o do Bolívar venezuelano… Bem, nesse caso, acredito que eles estiveram piores que quase todas as criptomoedas.
  3. Além de ter passado por um ciclo natural de qualquer bem de investimento (nos quais existem, alternadamente, altos e baixos), há, ainda, evidência de que as corretoras tenham usado o Tether para inflar o valor do Bitcoin artificialmente no final de 2017. Os dados dos estudos mais atuais apontam que 60% do valor que ele atingiu, eu seu pico, foi devido a “wash trades” dessas plataformas. Ou seja, um bem de investimento que estava passando por um ciclo de pico e que, naturalmente, iria desvalorizar em algum momento, foi vítima de um esquema que fez com que a sua queda fosse percentualmente muito maior do que o natural. Frente a essa queda, investidores tiraram seu dinheiro das criptomoedas tão rápido quanto colocaram no final de 2017. Adiciona-se isso à exposição midiática que elas tiveram nesse ano, trazendo uma onda de maus e inexperientes investidores, e tem-se o cenário perfeito para uma crise.

No primeiro semestre desse ano, portanto, a economia esteve ruim para muitas criptomoedas e, especificamente, para a maioria delas.

Dentre todas as altcoins, algumas, no entanto, pareciam estar em um universo paralelo no qual todos os fatores externos da economia eram ignorados e as levava a aproveitar seu período de maior crescimento. O que fez elas prosperarem?

A moeda mais bem-sucedida no total, de janeiro até julho de 2018, foi a PacCoin (PAC), com 1,4811.33% de ganho.

1º lugar – PacCoin (PAC) – 1,4811.33% de crescimento

Por que a PAC cresceu tanto?

Em março, o maior agregador de informações sobre criptomoedas, a CoinMarketCap, mostrava a PAC, uma moeda surgida em 2013, como a terceira mais valiosa, com um valor de capitalização de mercado de US$36.304 bi (colocando, inclusive, o Ripple para trás, com seus US$32,388 bi). Ninguém entendeu porque a moeda tinha crescido tanto, mas, é claro, muitos correram para comprar a nova recordista. Algumas horas depois, o valor caiu bruscamente. A explicação era a seguinte: para melhorar a visualização, o Global Coin Report dividiu o valor de mercado de todas criptomoedas por 100. Por algum motivo, ele deixou a PAC para trás, fazendo com que ela parecesse 100 vezes mais valiosa do que realmente era. Depois da correção, graças ao investimento em massa repentino que a PAC recebeu, demorou ainda cerca de dois meses até a moeda voltar ao seu preço original de 0.0052 USD. E, por conta disso, a PAC é nossa primeira colocada como moeda que mais cresceu no primeiro semestre de 2018.

2º lugar – Hexx (HEX) – 1,268.96% de crescimento

Por que a HEX cresceu tanto?

Essa moeda cresceu, em capitalização de mercado, de US$3 mihlões para US$20 milhões de maio a abril e terminou em US$9,321.000 em julho. A Hexx é um fork do ZCoin, que também é um fork de si mesmo. Sua principal característica é o protocolo zerocoin (que garante anonimato total, incluindo o de quanto foi mandado) e masternodes. Não é possível dizer, com exatidão, porque essa moeda prosperou tanto. Fazendo uma pequena pesquisa, no entanto, é possível perceber que já se falava bastante sobre ela meses antes de seu lançamento – provavelmente, a comunidade estava muito animada com a possibilidade de uma Monero moderna.

3º lugar – Mithril (MIT) – 992.53% de crescimento

Por que a HEX cresceu tanto?

Mithril é aquela moeda maluca lançada por um popstar da China e que vem junto com um aplicativo chamado Lit, uma cópia do Snapchat que paga os usuários pela popularidade deles, e que prometia lançar várias redes sociais nos mesmos moldes. A MIT cresceu especialmente em maio e abril, que foram os piores meses para a maioria das outras altcoins. Aparentemente, o app fez muito sucesso na Ásia, o que contribuiu para o crescimento da moeda.

4º lugar – Casinocoin (CSC) – 139.63% de crescimento

Dentre todos os problemas que causaram a recessão do primeiro semestre, a expectativa do mercado de que a Blockchain podia fazer mais do que ela realmente podia, causando um desinteresse do mercado na tecnologia, é um dos cruciais. Mas eis Casinocoin: a exceção à regra. Usabilidade real é um dos fatores que impulsionou o sucesso dessa moeda. E não era para menos: a equipe dos fundadores e conselheiros era toda formada de grandes nomes do mundo dos jogos e apostas, então não foi difícil incluir a tecnologia ali. Dentre todas as moedas que conseguiram florescer nesse período, portanto, a Casinocoin é uma das que conseguiu isso, talvez, com mais mérito.

5º lugar – Ontology (ONT) – 109.04% de crescimento

O Ontology é o projeto megalomaníaco da OnChain, mesma empresa responsável pelo NEO. Ao contrário deste último, no entanto, o Ontology conseguiu crescer significantemente na recessão. O principal atrativo do ONT é ser uma Blockchain que consegue fazer tudo ou capaz de encaixar uma aBlockchain que faça isso pra ele. As primeiras moedas do Ontology foram distribuídas através de airdrops para quem possuía NEOs na carteira. A equipe não é novata no negócio e, portanto, pode-se atribuir o sucesso do Ontology à excepcional capacidade administrativa e de marketing apresentada por ela [a equipe]. Uma característica particular do Ontology, inclusive, foram projetos para aproximar a indústria de Blockchain, como o Ontology Global Capital. O projeto foi bem-sucedido em manter uma curva consistente ao longo de todo semestre, crescendo sem muitos picos bruscos.

E o que isso pode nos dizer sobre o futuro do mercado?

Sendo assim, observamos que, mesmo diante de uma brutal recessão multifatorial que empurrava para baixo o valor de todas as criptomoedas e sucateava os projetos de Blockchain, alguns deles ainda conseguiram ser frutíferos – por sorte e (no caso da maioria) por competência real. Isso traz uma luz para o que vem adiante: se sobrevivemos ao tenebroso primeiro semestre de 2018, sobreviveremos a qualquer coisa.

Carlos Eduardo
Carlos Eduardo é um engenheiro frustrado que, ao decidir investir em criptomoedas e estudar o mercado, decidiu que gostava mais disso que do investimento em si. Já trabalhou como consultor para criptomoedas atualmente no top 100, dApps e publica periodicamente em revistas americanas e, aqui no Brasil, na BTCSoul. Acredita que a adoção geral de uma Smart Economy resolveria boa parte dos problemas do mundo.

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